Sábado de feriado…
Foram 20 dias. 20 dias trabalhando sem parar…
No ar das 4h às 22h, no mínimo, e quem falou que eu apenas durmo nesse intervalo de tempo? Depois das 22h tem direito a participação especial em monografia, criação de roteiros em parceria – algo que eu nunca havia feito, noite sem dormir e bate papo com alunos do ensino médio que estão escolhendo a profissão…viagem pra Paulínia em um fim de semana…no seguinte plantão na RIT. E o dentista estava marcado desde o feriado anterior. Era este sábado, ou nunca mais nesse ano…praticamente.
A consulta, que havia marcado anteriormente, seria dia 9. Fiquei mal de gripe…mas, corajosa…fui…acordei às 7h15 e chegando na recepção do consultorio a atendente dispara: “O Johny não te avisou?” Pensei “Não Johny, não tenha feito isso comigo!” ao que ela completa: “eu pedi pra ele te avisar que o Dr. Diego não virá hoje. Ele teve que ir pro outro trabalho!” Paciência, vou fazer o quê? Penso… sem tempo de agradecer antes dela me surpreender: “olha, pra você não perder a viagem, a Dra. Renata lhe atende e faz pelo menos a limpeza” Ótimo, não perco a viagem…
Sem limpeza, porque o sistema da Amil estava fora do ar, a avaliação e o diagnóstico são feitos: “Um restauração e duas cáries, mais a limpeza…quando voltar o Dr. Diego já inicia o tratamento!” Ok, vou nessa…retorno marcado para dia 31, pasmem, porque eu já sabia da saga de trabalho que viria…e não estou a fim de ir ao dentista das 22h às 4h em dias de semana, mas acabo sempre pensando: será que acharia algum funcionando?
Véspera da consulta…dia 30, olho o celular e…recado na caixa postal: “Lívia, favor entrar em contato no número 3255-0780 pra confirmar a consulta com Dr. Diego amanhã!” penso: “Perfeito, nem acredito que vou resolver isso!” Pego o telefone e ligo…cai no fax, novamente…e depois…fax. Desisto, tento mais tarde. Nada…a mesma coisa…fax!
Confabulando com a Denise na redação, e compartilhando a situação, chego à conclusão: “Vou mandar um fax, porque não?” e assim o faço…passo o fax confirmando a consulta, informando meu celular e solicitando novamente contato.
Mais tarde…telefone da redação toca…Lelê atende, olha pra trás e diz: “Lívia, pra você!” “estranho, nem minha mãe acho que tem esse número e ninguém me liga aqui..”
Eu:
- alô
Atendente:
- Lívia?
- Sou eu…
- Lívia eu to ligando pra confirmar sua consulta amanhã com o Dr. Diego.
- ok, está confirmado amanhã às 8h, é isso!?
- Isso mesmo
- tá certo, obrigada!
- por nada..até logo
- até logo
Ótimo. Amanhã resolvo isso. Era esse o meu objetivo. A sexta-feira termina, encontro com dois bons amigos. Eles partem às 3h e pouco e vou pra cama. Despertador programado…sono garantido até 7h30. Pulo da cama, vantagens de se morar no centro de São Paulo, eu saio 7h40 caminhando, tranquilamente…ouvindo meu som. Último cigarro antes da limpeza…o que pode soar absurdo, mas é realidade.
Na portaria o Gilson – que já ficara meu amigo da tentativa anterior – me lança: “engraçado, a Joyce me disse que não vinha hoje cedo…só às 10h. Você marcou?” eu digo: “sim, inclusive me ligaram ontem a noite confirmando!”e penso: “só pode ser brincadeira!” rindo por dentro da situação patética…novamente! Ele me diz: “Quer aguardar? Fique a vontade…” ah, vim até aqui, estava confirmado…vou esperar. Decisão tomada. Sento, escuto música e espero.”
Passados 10 minutos retorno e ao me dirigir ao Gilson, meu celular toca, interrompendo minha investida. Número desconhecido.
Eu:
- alô
Atendente:
- Lívia?
- Sou eu…
- Lívia eu sei que você está no prédio, mas o Dr. Diego me ligou e disse que não será possível te atender, será que você poderia voltar às 11h30.?”
Eu topei, precisava resolver isso. Voltei pra casa, antes uma passada naquela padaria com o café da manhã perfeito. Suco, expresso…logo depois vassoura, pano, tanque, roupa pra lavar e vamos aproveitar o sol…até o edredon foi pro varal! É, a casa tava precisando. Depois…banho, hora de me arrumar também…e vamos ao dentista! Juro que não foi proposital, mas dessa vez eu é que precisei ligar para a atendente.
Eu:
- alô, Joyce?
Atendente:
- Sim?
- Joyce…aqui é a Lívia, estou atrasada. Mas chego em cinco minutos o Dr. Diego pode me atender ainda?
- Sim Lívia, pode vir que ele lhe atende.
Pensei: “Finalmente eu vou resolver isso.” E o pensamento continua: “esse cara deve ser um filhinho de papai, daqueles bem mauricinhos que caiu na gandaia e não conseguiu trabalhar cedo!” Chego na sala, meu celular toca, a mulher do provedor…digo que não posso falar naquele momento…vejo, ao telefone, um homem de branco na recepção…desligo o fone e quando percebo ele some. A recepcionista pede pra aguardar, localiza minha ficha. E eis que surge o Doutor Diego.
Aperta minha mão, com as duas mãos dele, e faz uma brincadeirinha: “bom dia ou boa tarde…não sei”, diz ele sorrindo. Eu retribuo cordialmente o sorriso e respondo: “você já almoçou? eu não, então bom dia.” Ele sorri e diz: “ai, eu não posso ver um espelho, porque minha pele está como de adolescente – ele quebra o ritmo das palavras acelerando o aposto, que eu fico querendo apertar…que nojento, né?” completa…rindo meio sem graça e sem saber o que esperar. Eu solto uma gargalhada e digo que a maioria faz o mesmo e percebo que estou diante de uma figura irreverente.
Bonito? Bem charmoso eu diria…moreno, óculos, alto, cabelos curtos…perfumado e de jaleco. Não, isso não é nenhum fetiche…é simplesmente a descrição…ela é importante.
Ao longo da consulta bate maior papo…o que é um pouco desorientador já que não se sabe o que ele quer que eu faça pra interagir, se está mexendo na minha boca. A bem da verdade é que acho que esse deve ser o grande barato do dentista…imagine só: apenas ele fala! Explica tudo, pergunta da minha profissão…diz que a mãe mora no Mato Grosso com o padrasto, mas deixa claro que o pai ainda é vivo e presente. Ele mesmo pergunta e responde até que: “Ahh, deixa eu parar de falar, porque você deve estar pensando: ‘trabalha aí e cala a boca’.”
“Imagina”… pensei …“estou achando ótimo isso, você é engraçado” sem a menor condição de expressar meus pensamentos à ele. Dois minutos de silêncio…ele pergunta: “você fuma?” esboço uma afirmativa com direito a “ahan” e sacudida na cabeça. Vem a segunda: “já usou aparelho?” novamente minha afirmativa. Nem mais trinta segundos e ele dispara: “ai, eu tô tentando parar de fumar, tô tomando um remédio que um paciente me deu, ele trabalha na Pfizer, sabe? E eu preciso, né? Tava fumando um maço por dia…pode cuspir, querida!” eu acato a determinação, afinal tem momento de maior alívio do que esse quando se está no dentista? Fora que eu tava doida é pra falar também… aproveito a pausa, e o alívio…e conto rapidamente minha saga com o vício.
Terminando o tratamento e tirando as luvas vem a boa ou má notícia, o que foi o caso pra mim, por incrível que pareça em se tratando de dentista. “Lívia, agora só em seis meses! e pra fazer limpeza, está ótimo!” Agora era minha vez…eu podia falar. Rapidamente engato o assunto: “e o feriado? vai viajar ainda?” ele responde: “sim, pra Campos, mas volto segunda de manhã porque trabalho – demonstrando certo incomodo…que tento aliviar contando que eu também trabalho e que fico em São Paulo mesmo. Ainda brinco dizendo que as baladas ficam melhores aqui quando é feriado. Junto a uma risada ele rapidamente concorda e declara: “com certeza, eu só vou porque minha tia tem casa lá, aí vou aproveitar também!” e na sequência…emenda a frase que vai tirar, de uma vez por todas, a minha dúvida…se é que ainda restava alguma em mim.
- ai, menina…ontem eu fui assistir ‘Coco antes de Chanel’ e recomendo, viu? – tirando a caneta do papel, levantando o olhar e apontando pra mim. E finaliza: “bom… assim… meio parado, mas excelente!”
Sim, ele era gay!
Termina de assinar o papel, tira o jaleco, abre os braços vira o rosto e me dá aquele beijinho característico. E ainda completa: “foi um prazer, viu?” eu respondo rapidamente: “o prazer foi todo meu!”
E realmente foi…uma pessoa muito engraçada e do bem. Algo que você percebe logo no primeiro instante, sabe? Super agradável e profissional competente! Dei sorte…e finalmente consegui resolver isso.
Limpeza, restauração, obturação e uma pessoa super agradável. Nunca foi tão bom ir ao dentista. O que é certo e que não vão demorar seis meses pra eu revê-lo… Fato…afinal de contas, a despedida também teve direito a um: “se precisar de alguma coisa antes do retorno, só ligar e vir aqui, ok?”
Sinceramente espero não precisar, antes do retorno, dos serviços que ele presta. Mas adoraria ter o prazer de sua companhia em alguma balada um dia. E é certo que vou tentar!